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Quando o casal também é sócio o negócio precisa de regras claras

Com mais de 103 mil novos negócios de beleza abertos apenas no primeiro trimestre de 2026, divisão de responsabilidades ganha importância em empresas comandadas por casais

Dividir a vida pessoal e o comando de uma empresa coloca casais empreendedores diante de decisões que ultrapassam a rotina doméstica. No setor da beleza, definir responsabilidades, estabelecer autonomia e separar divergências profissionais da relação pessoal ganha importância à medida que novos negócios surgem e as operações se tornam mais complexas. O segmento abriu 103,2 mil pequenos negócios no primeiro trimestre de 2026, crescimento de 44,4% em relação ao mesmo período de 2025, segundo o Sebrae.

Casados e sócios, Saulo Abrahão e Luiz Ferraz, são empresários à frente do Duo+, negócio do setor da beleza que reúne serviços, gestão e desenvolvimento de profissionais. Ao longo da construção da empresa, os dois estabeleceram uma divisão de responsabilidades baseada nas competências de cada um e defendem que sociedade exige alinhamento sobre os rumos do negócio, mas não participação conjunta em todas as decisões.

“O casamento nos torna parceiros de vida. A sociedade exige que sejamos parceiros de negócio. Uma coisa não pode substituir a outra. Um dos nossos aprendizados foi entender que sociedade não funciona por consenso permanente. Se tudo precisa da aprovação dos dois, ninguém tem autonomia de verdade”, afirma Luiz.

A experiência dos dois foi construída enquanto o próprio negócio crescia e exigia uma estrutura mais definida de liderança. Hoje, Saulo concentra sua atuação na gestão, desenvolvimento empresarial e liderança de pessoas. Luiz, sócio e CMO, responde por frentes ligadas a marketing, posicionamento de marca, experiência, estratégia comercial, comunicação e excelência técnica. As decisões que alteram os rumos da empresa continuam compartilhadas, mas o cotidiano de cada área tem responsáveis definidos.

Para eles, uma das mudanças mais importantes foi compreender que ocupar posições equivalentes na sociedade não significa desempenhar a mesma função. “Ter a mesma participação na sociedade não significa ter a mesma função dentro da empresa. Um dos erros de casais que empreendem juntos é acreditar que ser sócio significa participar de todas as decisões. Sociedade exige alinhamento sobre o destino, mas gestão exige responsáveis claros pelo caminho”, ressalta Saulo.

Essa separação se torna especialmente importante quando decisões sobre contratação, investimentos, marketing, equipe ou expansão colocam opiniões diferentes à mesa. Em vez de transformar cada divergência em uma disputa entre os dois, a definição das cadeiras estabelece quem tem autonomia para decidir e quais assuntos precisam, necessariamente, de uma conversa conjunta.

Mesma direção não significa mesma função

A construção desse modelo não aconteceu sem erros. Saulo e Luiz afirmam que parte do aprendizado veio justamente das situações em que os limites entre as funções não estavam suficientemente definidos. Quando os dois tentam participar de uma mesma decisão operacional, por exemplo, a empresa pode perder velocidade e a discordância profissional corre o risco de continuar depois do expediente.

“Discordar não é o problema. Nós discordamos e isso faz parte de qualquer sociedade. O que aprendemos foi que nem toda divergência precisa terminar com um convencendo o outro. Se o assunto está dentro da cadeira de um de nós, precisa existir confiança para que essa pessoa decida. Reservamos para os dois aquilo que realmente muda os rumos da empresa”, aponta Saulo.

O mesmo princípio vale para a relação com a equipe. Quando funcionários recebem orientações diferentes dos dois sócios ou não sabem quem responde por determinada frente, uma indefinição do casal passa a afetar a operação. Para Saulo e Luiz, o organograma precisa funcionar independentemente da relação pessoal entre os donos.

A separação também vale fora da empresa. Como os dois compartilham trabalho e vida pessoal, estabelecer limites para as conversas profissionais passou a fazer parte da própria organização da sociedade. “A empresa não pode acompanhar o humor da relação. Podemos ter uma questão para resolver como casal e, ainda assim, precisamos cumprir nossas responsabilidades profissionais. Da mesma forma, uma discussão de trabalho não pode ocupar todos os espaços da nossa vida pessoal”, afirma Luiz.

Uma dificuldade que se repete entre outros casais

O problema não se restringe à experiência dos dois. Na Mentoria Voe Alto, que acompanha empresários do setor da beleza, Luiz e Saulo observam a mesma dificuldade em negócios comandados por casais: muitas empresas sabem quem são seus sócios juridicamente, mas não definiram quem responde por cada cadeira na prática. Entre os perfis atendidos estão negócios nos quais um parceiro concentra determinadas responsabilidades enquanto o outro assume frentes diferentes, mas ambos precisam manter alinhamento sobre os objetivos da empresa.

A questão ganha relevância à medida que o setor cresce. Em 2025, foram abertos cerca de 236 mil pequenos negócios de beleza no Brasil, segundo o Sebrae. Com equipes maiores, novas unidades e operações mais complexas, decisões que antes podiam ser tomadas informalmente passam a exigir processos, responsáveis e critérios claros.

Para Saulo e Luiz, a divisão também precisa ser revista conforme a empresa muda. A entrada de novas lideranças, o crescimento da equipe ou uma nova estratégia comercial podem alterar as responsabilidades. O importante é evitar que a relação afetiva seja usada como substituta da estrutura empresarial.

“Quando cada um entende a própria responsabilidade, a sociedade deixa de ser uma extensão do casamento e passa a funcionar como uma empresa. Continuamos construindo as decisões importantes juntos, mas não precisamos ocupar a mesma cadeira para caminhar na mesma direção”, destaca Luiz.

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