Há momentos em que uma mulher entra em um escritório de advocacia sem saber exatamente como explicar o que está vivendo. Às vezes há medo. Em outras, vergonha. Há quem chegue cansada de tentar. Há quem esteja preocupada com os filhos. E há aquelas que, depois de tanto tempo submetidas à violência, já nem conseguem enxergar com clareza por onde começar.
Foi convivendo com histórias assim que Dra. Rosana Lara entendeu que exercer a advocacia, em determinados momentos, significa muito mais do que conhecer leis, prazos e processos. Significa saber ouvir.No trabalho desenvolvido por seu escritório, essa ideia aparece de maneira muito clara: antes de explicar direitos ou indicar caminhos jurídicos, vem a escuta. O atendimento às mulheres é apresentado como um espaço sem julgamentos, com sigilo, linguagem simples e acompanhamento ao longo do processo.
Pode parecer um detalhe mas não é. Para uma mulher que vive violência, procurar ajuda muitas vezes significa atravessar uma fronteira invisível entre continuar suportando aquela realidade e admitir para si mesma que precisa sair dela. E é justamente nessa fronteira que Rosana escolheu trabalhar.

A VOZ DAS SILENCIADAS
A violência doméstica raramente começa no momento em que alguém procura um advogado. Quando a vítima finalmente pede ajuda, pode existir uma história anterior de medo, dependência, ameaças, filhos envolvidos, relações familiares rompidas e uma autoestima que foi sendo corroída pouco a pouco.
Por isso, o trabalho jurídico desenvolvido por Rosana com essas mulheres não se limita a uma única providência. Pode envolver medida protetiva e acompanhamento sob a Lei Maria da Penha, mas também divórcio, pensão alimentícia, guarda dos filhos e definição de convivência. São questões diferentes no Direito, mas que, na vida real, frequentemente fazem parte da mesma história.
É aí que a firmeza jurídica precisa conviver com outra qualidade menos encontrada nos códigos: sensibilidade para perceber quem está do outro lado da mesa. Porque existe uma diferença enorme entre simplesmente conduzir um processo e ajudar uma pessoa a recuperar a capacidade de conduzir a própria vida.
Rosana passou a acompanhar mulheres justamente em alguns dos momentos mais vulneráveis dessa travessia.Mulheres que precisavam entender seus direitos, proteger os filhos, mulheres que precisavam interromper situações de violência e mulheres que, antes de qualquer decisão judicial, precisavam voltar a acreditar que ainda tinham escolha.
Seu escritório resume essa maneira de trabalhar em quatro palavras: escuta, sigilo, clareza e presença. Na prática, são quatro palavras que dizem muito sobre a advocacia que ela decidiu exercer. A lei oferece instrumentos para interromper a violência mas reconstruir uma vida exige algo que sentença alguma consegue determinar por decreto.
Exige que aquela mulher volte a se perceber como dona das próprias decisões. É por isso que algumas vitórias não cabem nos autos de um processo. Estão na mulher que volta a trabalhar. Naquela que consegue dormir sem medo. Na mãe que reorganiza a vida dos filhos. Na pessoa que recupera autonomia depois de anos acreditando que não conseguiria viver de outra maneira.
É nessa dimensão humana que a atuação de Rosana ganhou significado. E foi também daí que surgiu, com o tempo, algo que ela própria talvez não tivesse planejado como destino.
QUANDO UMA CAUSA COMEÇA A PEDIR MAIS ESPAÇO
O reconhecimento desse trabalho aproximou Rosana de pessoas que passaram a enxergar nela uma possibilidade de levar essas experiências para além do atendimento individual. O incentivo para entrar na vida pública nasceu desse percurso.Não porque a política tivesse criado uma causa para ela defender. Foi o contrário. A causa já existia.
A candidatura a deputada estadual apareceu como a possibilidade de ampliar uma luta que, até então, acontecia mulher por mulher, processo por processo.
Existe uma diferença importante aí. Como advogada, Rosana pode atuar quando uma mulher bate à sua porta.Na vida pública, passa a existir outra possibilidade: discutir políticas capazes de alcançar também mulheres que ela nunca conhecerá pessoalmente.
Transformar experiência em prevenção, acolhimento em política pública. E problemas que chegam individualmente ao escritório em debates que precisam chegar ao Estado.Foi assim que a candidatura entrou em sua história: não como ponto de partida, mas como uma nova dimensão de um trabalho que já estava acontecendo. E havia ainda outra parte dessa trajetória esperando para ganhar o mesmo espaço.
CUIDAR DE QUEM CUIDA
Durante mais de uma década de atuação ligada à área da saúde, Rosana conheceu outra realidade que também costuma permanecer escondida de quem observa um hospital apenas como paciente. Por trás de cada leito existe alguém trabalhando. Enquanto uma família espera notícias, alguém permanece dentro da UTI. Enquanto uma cirurgia atravessa a madrugada, alguém continua ao lado do paciente. E, muitas vezes, esse alguém é uma enfermeira, uma técnica ou uma auxiliar de enfermagem.
São profissionais submetidos a plantões extensos, emergências, UTIs, centros cirúrgicos e situações de grande desgaste físico e emocional. É justamente essa realidade que aparece como ponto de partida do programa idealizado por Rosana: Cuidar de Quem Cuida. O nome traduz uma pergunta simples, mas incômoda: quem cuida de quem passa a vida cuidando dos outros?
QUEM SUSTENTA O PLANTÃO TAMBÉM CANSA
A proposta de Rosana não nasceu apenas de uma ideia abstrata de valorização profissional. Ela parte de um problema concreto. A legislação federal já prevê condições adequadas de repouso para os profissionais de enfermagem. O desafio, portanto, é fazer esse direito existir também no cotidiano dos hospitais.
É daí que nasce o Programa Cuidar de Quem Cuida — Programa de Valorização, Repouso e Saúde Mental da Enfermagem de São Paulo. E a proposta foi pensada para sair do discurso. O primeiro passo previsto é levantar as condições existentes no complexo do Hospital das Clínicas de São Paulo: quantos espaços de repouso e descompressão existem, quem tem acesso a eles, se atendem às exigências legais, quais unidades precisam de adequação e se existem programas específicos de prevenção ao esgotamento e promoção da saúde mental da enfermagem.
Depois, a proposta é iniciar ali um projeto-piloto, priorizando justamente os setores em que o desgaste tende a ser maior: pronto-socorro, emergência, UTIs, centros cirúrgicos, oncologia e áreas marcadas por plantões prolongados ou grande carga física e emocional. Não se trata apenas de colocar uma poltrona em algum canto do hospital e chamar aquilo de descanso.
O projeto prevê ambientes efetivamente destinados ao repouso e à descompressão, com possibilidade de reforma e adaptação dos espaços, mobiliário adequado, climatização, tratamento acústico, iluminação, armários e estrutura para recuperação durante os intervalos dos plantões. A experiência no HC serviria posteriormente como referência para uma expansão pela rede estadual.Háainda uma dimensão maior.
O projeto de lei que integra o programa propõe diretrizes estaduais para recuperação física e saúde mental da enfermagem, prevenção do esgotamento profissional, redução dos riscos da fadiga e melhoria das condições de trabalho. E estabelece uma relação que às vezes é esquecida: cuidar de quem trabalha também contribui para a segurança de quem está sendo atendido. Ou seja: não é benefício para uma categoria isolada. É também uma questão de qualidade da assistência.
DUAS CAUSAS QUE, NO FUNDO, SE ENCONTRAM
À primeira vista, defender uma mulher vítima de violência e lutar por melhores condições para a enfermagem podem parecer duas histórias diferentes. Na trajetória de Rosana Lara, elas acabam se encontrando. A enfermagem é uma profissão marcada por uma presença feminina muito expressiva. E muitas dessas mulheres passam a vida desempenhando justamente o papel que a sociedade historicamente colocou sobre seus ombros: cuidar. Cuida dos pacientes, dos filhos, da família. Cuidam de pessoas que talvez nunca mais encontrem depois da alta. Mas quem olha para elas quando o corpo chega ao limite?Quem percebe a profissional que terminou um atendimento difícil, respirou fundo e entrou imediatamente no quarto seguinte? Quem cuida da pessoa por trás do uniforme? Talvez seja exatamente nesse ponto que as duas grandes causas de Rosana deixem de ser duas.
No escritório, ela encontrou mulheres que precisavam recuperar segurança para reconstruir a própria vida. Na saúde, encontrou profissionais que passam a jornada oferecendo segurança aos outros e que também precisam ser protegidas. Nos dois lugares existe alguém acostumado a suportar muito antes de pedir ajuda. E talvez seja por isso que essas histórias tenham encontrado espaço na mesma trajetória.

DA ESCUTA À VIDA PÚBLICA
Rosana Lara chega à disputa por uma cadeira de deputada estadual carregando essas experiências. Seria fácil contar essa história ao contrário e fazer parecer que as causas nasceram depois da candidatura. Mas a cronologia importa. Primeiro vieram as pessoas. Depois vieram as causas. Só então veio a política. A advocacia colocou Rosana diante de mulheres que precisavam ser ouvidas e defendidas. A experiência na saúde mostrou a realidade de profissionais que passam a vida cuidando dos outros e nem sempre encontram estrutura para cuidar de si mesmos. A política apareceu depois, como possibilidade de aumentar a escala dessas respostas.
Isso não significa que uma candidatura transforme automaticamente intenção em resultado. A vida pública exige debate, construção, fiscalização, orçamento, negociação e capacidade de transformar propostas em políticas efetivas.
Mas explica por que Rosana decidiu estar ali. Ela não abandona a advocacia para entrar em outra história. Leva para a vida pública a história que já vinha construindo. E, quando se olha para as duas pontas dessa trajetória, talvez exista uma palavra capaz de uni-las melhor do que qualquer outra.
Cuidado.
Não o cuidado entendido como fragilidade. O cuidado que escuta quando alguém está com medo. Que conhece a lei quando é preciso proteger. Que tem firmeza quando é necessário enfrentar. Que olha para uma profissional exausta e reconhece que ela também tem limites. E que entende que dignidade não deveria começar apenas depois que alguém chega ao extremo. No escritório ou no hospital, diante de uma mulher vítima de violência ou de uma profissional depois de horas de plantão, a pergunta que atravessa a trajetória de Rosana Lara parece ser a mesma. quem está cuidando de quem passou tanto tempo cuidando, suportando e lutando pelos outros? É essa pergunta que ela agora leva para a vida pública.
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