Com dez looks e direção artística de Felipe Barbosa, a coleção da marca amazônida Val Valadares conecta momentos decisivos do vestir a histórias, matérias e saberes amazônicos, do muiraquitã à borracha limpa, do grafismo marajoara à noiva que escolhe ficar.
Em 22 de setembro, sob os afrescos do Salone degli Affreschi, em Milão, a coleção “Amazônia: do passado ao futuro” propôs uma inversão de perspectiva: em vez de inserir a floresta na história da moda, mostrou que ela sempre esteve ali quase sempre sem crédito. Durante a Milano Fashion Week, marca Val Valadares apresentou dez looks com direção artística de Felipe Barbosa.
Cada criação aproxima um marco da história do vestir de uma referência amazônica. Natureza abre a narrativa antes mesmo de a moda existir. Antes da Amazônia retoma o primeiro ornamento e a história das Icamiabas, mulheres que, na coleção, deixam de ser confundidas com as amazonas da mitologia grega. O muiraquitã ganha forma de roupa: são 283 peças feitas à mão, construídas sobre tiras de câmara de pneu reaproveitadas.
Em A Túnica, o linho e o grafismo marajoara encontram a peça de roupa tecida mais antiga conhecida. A Filha das Águas transforma a vitória-régia em silhueta: 176 aplicações de borracha limpa percorrem a peça em tons que vão da raiz à superfície. Já O Desabrochar traduz em volume e cauda as duas noites da flor, primeiro branca, depois rosa, com fuxicos feitos de retalhos e sobras do ateliê.
A sequência avança para A Ascensão, que evoca o fraque e o auge do ciclo da borracha; O Declínio, que encena a perda e o colapso; e Terra, onde o barro e o grafismo marajoara apontam para um recomeço. Em Marajó, o trench coat europeu encontra o linho e os bordados da ilha, uma homenagem a Dener Pamplona, nascido em Soure. O desfile termina com A Noiva, que revisita o vestido branco e a história de Alice Tem-Brink, mas propõe um desfecho próprio: desta vez, a Amazônia não é um lugar de passagem. A noiva é daqui e fica.
A matéria também está na construção das peças. A coleção partiu de materiais já disponíveis no ateliê, incorporou resíduos e foi executada com mão de obra local. Todo o calçado é feito de borracha limpa pela Seringô; nenhuma peça leva couro. O grafismo marajoara aparece bordado à mão, e os botões de marchetaria são talhados artesanalmente. A sustentabilidade, aqui, começa na concepção e se revela nos detalhes.

Para Felipe, esse cuidado aponta para uma conversa cada vez mais relevante no luxo: o valor do que é feito à mão, do tempo investido e dos saberes que passam entre gerações. Em Milão, a Amazônia não apareceu como tendência ou cenário exótico, mas como origem de técnica, pensamento e criação contemporânea.
Relacionado







































