Com temperaturas mais altas e mudanças no trabalho híbrido, empresas passam a tratar climatização como estratégia para desempenho e resultado financeiro
O aumento das temperaturas e a intensificação das ondas de calor nos últimos meses passaram a movimentar empresas a rever a forma como lidam com a climatização dos ambientes de trabalho. Dados do serviço europeu Copernicus mostram que os últimos 12 meses seguem entre os mais quentes já registrados globalmente, mantendo a temperatura média acima de 1,5°C em relação aos níveis pré industriais, o que amplia o impacto do calor sobre a saúde e o desempenho no trabalho. Nesse contexto, a qualidade do ar deixou de ser apenas uma questão de conforto e passou a influenciar diretamente produtividade e custos operacionais.
Na perspectiva de Patrick Galletti, engenheiro mecatrônico, especialista em climatização e CEO do Grupo RETEC, o tema deixou de ser operacional e passou a ser estratégico. “A qualidade do ar e o conforto térmico influenciam diretamente a capacidade de concentração, a disposição e até a permanência dos colaboradores nas empresas. Ignorar isso é assumir prejuízo silencioso”, afirma.
Estudos reforçam esse impacto, pesquisa da Harvard T.H. Chan School of Public Health aponta que ambientes com ventilação inadequada e níveis elevados de CO₂ comprometem a função cognitiva dos profissionais; já dados do National Center for Biotechnology Information indicam que a produtividade pode cair entre 10% e 15% em condições térmicas inadequadas.
No Brasil, o problema ganha dimensão operacional, sistemas de climatização representam cerca de 47% do consumo de energia em edifícios comerciais e públicos, segundo a Empresa de Pesquisa Energética. “Quando o sistema não é eficiente, a empresa gasta mais energia e ainda reduz o desempenho das equipes”, diz Galletti.
A mudança no modelo de trabalho também intensificou o desafio, com escritórios operando em regime híbrido, a climatização passou a exigir maior controle e adaptação. Levantamento da consultoria Leesman mostra que 37% dos profissionais consideram o conforto térmico um dos fatores mais relevantes para sua produtividade. Ao mesmo tempo, áreas desocupadas continuam consumindo energia por falta de gestão inteligente.
Segundo o executivo, a solução passa por tecnologia e gestão. “Sistemas com sensores de presença e qualidade do ar permitem ajustar automaticamente a climatização conforme a ocupação, isso reduz desperdícios e garante conforto real para quem está no ambiente”, explica.
Além do impacto direto na produtividade, a qualidade do ar também influencia indicadores de saúde corporativa. A Organização Mundial da Saúde estima que grande parte das doenças respiratórias está associada à exposição a poluentes atmosféricos, um risco ampliado em ambientes fechados sem ventilação adequada. Isso se reflete em mais afastamentos, maior rotatividade e perda de eficiência operacional.
“A empresa que investe em climatização adequada reduz absenteísmo e melhora o engajamento, o colaborador percebe o cuidado com o ambiente e responde com mais produtividade. Não se trata apenas de conforto, mas de criar condições reais para que as pessoas performem melhor.” afirma Galletti.
A tendência é que a climatização passe a integrar indicadores de desempenho corporativo, ao lado de custos e metas operacionais. Com ondas de calor mais frequentes e maior exigência por bem-estar no trabalho, empresas começam a tratar a qualidade do ar como parte da estratégia de crescimento.
“Climatização não é mais um detalhe da infraestrutura. É um fator que impacta diretamente no resultado financeiro, retenção de talentos e competitividade”, conclui o especialista.
