Negócios

Na era da contabilidade consultiva, pequenas empresa trocam a corrida por vendas pela busca por margem

Empresários direcionam esforços para gestão financeira, redução de custos e aumento da eficiência, impulsionando a procura por contabilidade estratégica 

Embora os pequenos negócios representam a espinha dorsal da economia em 2026, respondendo por 97,3% das empresas abertas no primeiro bimestre, a gestão interna dessas operações ainda esbarra em hábitos antigos. Dados do Sebrae revelam um paradoxo: ao mesmo tempo em que o setor lidera a criação de CNPJs, 61% dos empreendedores continuam misturando as finanças do negócio com o bolso pessoal, um indicativo direto de desorganização financeira e falta de controle gerencial. 

Para Márcio Lopes, especialista em gestão tributária, empresário e CEO da Tributo Certo, esse movimento tem levado empresários a buscar uma relação mais estratégica com a contabilidade. “Durante muito tempo, a contabilidade foi vista apenas como uma obrigação necessária para atender exigências fiscais. Hoje, ela passou a ocupar um papel importante na gestão do negócio, ajudando empresários a entender custos, margens, rentabilidade e oportunidades de melhoria financeira”, afirma.

A busca por eficiência ganhou força em um momento em que empresas de todos os portes enfrentam desafios relacionados ao controle de despesas, aumento de custos operacionais e necessidade de preservar caixa. Nesse contexto, cresce o interesse por análises financeiras mais aprofundadas, capazes de apoiar decisões que impactam diretamente nos resultados.

A mudança também ocorre em meio ao período de transição da Reforma Tributária. Com a implementação gradual do novo modelo de tributação sobre o consumo, empresas com pouca visibilidade sobre custos, margens, formação de preços e carga tributária tendem a enfrentar mais dificuldades para avaliar impactos financeiros e adaptar suas estratégias. Nesse contexto, informações contábeis e indicadores gerenciais ganham relevância para apoiar decisões relacionadas à precificação, rentabilidade e planejamento financeiro. 

Contabilidade estratégica ganha espaço na gestão empresarial

A chamada contabilidade estratégica ou contabilidade consultiva vem ampliando sua presença entre pequenas e médias empresas. Diferentemente do modelo tradicional, focado principalmente no cumprimento de obrigações legais, a proposta envolve transformar dados financeiros em informações que auxiliem a gestão do negócio.

Segundo o empresário, os empresários passaram a compreender que crescimento e faturamento nem sempre significam aumento de lucro. “Muitas empresas vendem mais, mas não conseguem converter esse crescimento em resultado financeiro. Quando os números são analisados de forma estratégica, fica mais fácil identificar desperdícios, corrigir processos e direcionar investimentos com maior precisão”, explica.

Entre os indicadores mais acompanhados pelos empresários estão geração de caixa, margem de lucro, despesas operacionais, rentabilidade por produto ou serviço e impacto tributário das operações. O acompanhamento desses dados permite uma visão mais clara sobre a saúde financeira da empresa e ajuda a prever riscos.

Falta de controle financeiro ainda desafia pequenos negócios

Levantamento recente do Sebrae aponta que a falta de planejamento e controle financeiro continua entre os principais desafios enfrentados pelos pequenos negócios brasileiros. Problemas como ausência de acompanhamento periódico dos números, dificuldade na formação de preços e mistura entre finanças pessoais e empresariais seguem presentes em grande parte das empresas.

Para Julia Lopes, advogada, especialista em planejamento patrimonial e sucessório e sócia da Tributo Certo, muitas oportunidades de ganho financeiro acabam sendo perdidas justamente pela ausência de informações estruturadas. “O empresário normalmente concentra sua atenção no faturamento, mas nem sempre consegue enxergar onde estão os vazamentos financeiros da operação. A contabilidade estratégica ajuda a identificar esses pontos e criar processos mais eficientes para proteger a rentabilidade da empresa”, afirma.

A especialista destaca que a qualidade das informações financeiras também influencia decisões relacionadas à expansão dos negócios, acesso a crédito e planejamento de longo prazo. “Uma empresa que possui dados organizados consegue tomar decisões com mais segurança, planejar investimentos e estruturar seu crescimento de forma mais consistente”, diz.

A especialista observa que a Reforma Tributária também tem acelerado a necessidade de uma gestão financeira mais estruturada. “Muitas empresas ainda analisam seus resultados apenas pelo faturamento. Com as mudanças tributárias em andamento, acompanhar indicadores financeiros e tributários passa a ser fundamental para entender margens, revisar preços e antecipar impactos que podem afetar diretamente a rentabilidade do negócio”, afirma. 

Gestão baseada em dados se torna diferencial competitivo

A digitalização dos processos empresariais e o acesso a ferramentas de análise financeira têm contribuído para a popularização da contabilidade estratégica, informações que antes ficavam restritas a grandes corporações passaram a fazer parte da rotina de pequenas empresas interessadas em melhorar sua eficiência operacional.

Para Márcio e Julia, a crescente adoção da contabilidade estratégica reflete uma transformação na forma como os empresários administram seus negócios. Na avaliação dos especialistas, decisões fundamentadas em indicadores financeiros, planejamento tributário e acompanhamento constante dos resultados tendem a proporcionar mais segurança, previsibilidade e eficiência na gestão. Empresas que conhecem seus números com profundidade conseguem identificar oportunidades, corrigir desvios com maior agilidade, direcionar recursos de maneira mais assertiva e responder com mais segurança às mudanças trazidas pela Reforma Tributária. 

Ambos observam que o avanço da contabilidade estratégica entre pequenas e médias empresas demonstra uma visão mais madura sobre gestão empresarial. O acompanhamento de indicadores, a organização financeira e o uso estratégico das informações contábeis passaram a ser vistos como instrumentos essenciais para aumentar a lucratividade, reduzir desperdícios, fortalecer o fluxo de caixa e sustentar o crescimento dos negócios no longo prazo.

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