Brasil

O que o robô faz durante uma cirurgia

Ricardo Brandina, cirurgião robótico com mais de dez anos de atuação na área, destaca a importância do preparo médico para o uso de plataformas robóticas.

Tecnologia permite movimentos mais delicados e visão ampliada, mas treinamento e experiência médica continuam decisivos no procedimento

A cirurgia robótica ganhou espaço no tratamento de diferentes tipos de câncer e passou a fazer parte da rotina de centros especializados, mas a expansão da tecnologia também trouxe dúvidas entre os pacientes sobre o papel do médico e do robô durante a operação.

No caso do câncer de próstata, cuja estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer aponta 77.920 novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028, a resposta é objetiva. O equipamento amplia recursos técnicos durante a cirurgia, mas não atua de forma autônoma.

Para Ricardo Brandina, médico urologista, cirurgião robótico e coordenador do Programa de Cirurgia Robótica do Hospital Evangélico de Londrina, entender essa diferença ajuda a estabelecer expectativas mais realistas sobre o tratamento. 

“O robô não faz a cirurgia sozinho, todos os movimentos são comandados pelo cirurgião. A plataforma oferece recursos como visão tridimensional ampliada, maior controle dos instrumentos e movimentos mais delicados, mas a decisão sobre o que fazer em cada etapa continua sendo médica”, explica.

Cirurgia robótica exige treinamento especializado

A cirurgia robótica é considerada pelo Conselho Federal de Medicina um procedimento de alta complexidade. A regulamentação determina que o médico responsável tenha qualificação na especialidade e treinamento específico para utilizar a plataforma.

Durante o procedimento, o cirurgião trabalha em um console e controla os instrumentos conectados ao sistema robótico. A tecnologia reproduz os movimentos das mãos e oferece uma imagem ampliada da região operada, o que pode ajudar principalmente em áreas anatômicas de difícil acesso.

Para o cirurgião, porém, a presença da tecnologia não reduz a importância da formação profissional. “Quanto mais sofisticada é a ferramenta, maior precisa ser o preparo de quem a utiliza. Conhecimento anatômico, experiência cirúrgica, planejamento e capacidade de tomar decisões diante de situações inesperadas continuam sendo fundamentais”, afirma.

Com mais de 20 anos de experiência em urologia e mais de dez anos de atuação em cirurgia robótica, o especialista já participou do tratamento de mais de 2 mil pacientes pela técnica. Também realizou formação avançada em cirurgia laparoscópica e robótica na University of Southern California, nos Estados Unidos.

Câncer de próstata reúne parte das principais indicações

Entre as aplicações mais conhecidas está a prostatectomia radical, cirurgia utilizada em determinados casos de câncer de próstata. Uma revisão sistemática e meta análise publicada em junho de 2026 no periódico International Urology and Nephrology analisou 27 estudos, com 38.530 pacientes, e encontrou menor perda de sangue, menor necessidade de transfusão e menor tempo de internação entre pacientes submetidos à técnica robótica em comparação com a cirurgia aberta.

“A escolha da técnica não deve começar pela pergunta sobre usar ou não um robô. Primeiro é preciso entender se existe indicação de cirurgia, qual é a extensão da doença e quais características daquele paciente precisam ser consideradas”, ressalta o especialista.

No câncer de próstata, essa análise é especialmente importante porque a glândula está próxima de estruturas relacionadas à continência urinária e à função sexual. A visualização ampliada pode auxiliar o cirurgião durante a operação, mas a preservação dessas estruturas depende de fatores como anatomia, localização do tumor e estágio da doença.

Tumores renais também podem ser tratados com a técnica

A cirurgia robótica também é utilizada em determinados tumores renais. Em alguns pacientes, a estratégia pode envolver a retirada apenas da região afetada pelo câncer, mantendo o restante do rim.

Nesses casos, o cirurgião precisa avaliar tamanho, localização e profundidade da lesão, além da relação do tumor com vasos sanguíneos e outras estruturas do órgão. A plataforma pode ampliar a visão e facilitar movimentos delicados durante a retirada da lesão e a reconstrução do rim.

Especialista em cirurgia robótica urológica, Ricardo Brandina atua principalmente no tratamento de câncer de próstata e tumores renais.

“Em um tumor renal, cada caso apresenta uma anatomia diferente. A tecnologia pode contribuir para a precisão dos movimentos, mas a definição sobre quanto tecido retirar e como preservar o restante do órgão depende da avaliação e da experiência do cirurgião”, explica Ricardo.

Segundo o cirurgião, o mesmo raciocínio vale para outras aplicações da cirurgia robótica. O benefício do equipamento está na capacidade de ampliar os recursos disponíveis ao médico, e não em substituir sua participação no procedimento.

Tecnologia e experiência precisam caminhar juntas

A popularização da cirurgia robótica também aumentou a procura de pacientes pela técnica. Para o especialista, esse movimento torna ainda mais importante explicar que a existência de um robô no centro cirúrgico, por si só, não determina a qualidade do tratamento. “A cirurgia robótica é uma ferramenta de alta precisão, mas quem interpreta as imagens, planeja a estratégia e reage ao que acontece durante a operação é o cirurgião. Tecnologia, treinamento e experiência precisam caminhar juntos”, afirma.

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