Música

“Ou eu virava, ou eu virava”: Anara revisita desafio de 90 dias e prepara nova fase artística

Há três anos, a cantora e compositora Anara colocou sua própria trajetória à prova pública em uma das apostas mais ousadas do cenário musical independente recente: estabelecer um prazo de exatos 90 dias para mudar de vida e iniciar sua ascensão no pop nacional. Sem garantias financeiras, sem apoio de gravadora e recém-saída de um emprego formal, a artista decidiu documentar todo o processo nas redes sociais. O que era para ser uma contagem regressiva pessoal transformou-se em um fenômeno de comunidade, atraiu investimentos e gerou milhares de mensagens. Agora, enquanto projeta uma nova versão do desafio e o lançamento de seu primeiro álbum, Anara abre os bastidores inéditos daquele período, equilibrando a autoconfiança inicial com a maturidade adquirida ao longo dos últimos três anos.

A semente do desafio surgiu a partir de uma prática que ela já cultivava: o hábito de registrar o início da caminhada. Estudiosa de temas como visualização, manifestação e mentalização, Anara publicou um primeiro vídeo compartilhando sua ambição com convicção absoluta. O conteúdo alcançou cerca de 300 mil visualizações em menos de 24 horas.

“A ideia do desafio surgiu de uma coisa que eu já vinha fazendo: documentar o antes. Eu sempre tive muita certeza de que ia ser uma das cantoras mais conhecidas do Brasil e do mundo, e conseguia sentir aquela realidade muito próxima. Postei um vídeo completamente despretensioso falando isso abertamente e mostrando o que estava fazendo para conquistar. Aquele vídeo viralizou no primeiro dia e eu pensei: ‘Já está acontecendo’. Só que tinha um detalhe que ninguém sabia: a minha vida pessoal estava um caos. Eu tinha acabado de sair de um trabalho, não tinha nenhuma garantia financeira para os próximos meses e nem sabia como ia pagar as contas. Então aqueles 90 dias não eram um prazo aleatório de internet, eram literalmente o tempo que eu acreditava ter para fazer a carreira girar. Ou eu virava, ou eu virava”, relembra Anara.

Bastidores reais, superação com TDAH e identificação coletiva

Com uma equipe reduzida, composta inicialmente apenas por seu coreógrafo e, dias depois, por uma estrategista digital, o desafio ganhou corpo diário no Instagram. Longe de mostrar apenas glamour, Anara abriu suas planilhas, rotinas de ensaio, estudos, frustrações e as barreiras de ser uma mulher preta, vinda do interior, tentando espaço em uma indústria altamente concentrada.

Um dos pilares mais comentados pelo público foi a transparência com que abordou sua saúde mental e disciplina: “Eu precisei me agarrar a tudo que eu tinha e até ao que não tinha. Foi por isso que estudei tanto mentalização e foco, porque eram ferramentas para construir a confiança necessária sem nenhuma garantia de resultado. E isso não foi algo que sempre soube fazer, precisei desenvolver. Eu tenho TDAH, tenho dificuldade com dispersão de foco, e precisei aprender a direcionar a minha atenção e a minha energia para conquistar um objetivo que, para muita gente, parecia completamente impossível, e confesso que até para mim parecia, mas continuei confiando no processo.”

A autenticidade gerou uma onda de mais de 4 mil interações profundas, entre comentários e mensagens diretas. O público não apenas acompanhava os passos da artista, mas utilizava sua determinação como combustível para suas próprias vidas.

“Acho que a minha autoconfiança e a coragem de falar o que quase ninguém fala abertamente despertaram curiosidade. Algumas pessoas acreditavam em mim, outras achavam que eu era maluca, mas todo mundo queria saber se eu ia conseguir. Só que o que fez as pessoas abraçarem o desafio de verdade foi perceber que, apesar de toda aquela certeza, a minha realidade era o oposto do futuro que eu desenhava: eu era uma menina preta, do interior e sem estrutura. Recebi mensagens enormes de pessoas de outras profissões dizendo que ver meus perrengues fez com que elas voltassem a acreditar nos próprios sonhos. No fundo, eu falava sobre acreditar em uma realidade que ainda não existe e fazer o possível e o impossível para construí-la.”

O choque pós-desafio: frustração, autocrítica e o “teste de confirmação”

Quando o cronômetro dos 90 dias zerou, no entanto, o sentimento íntimo da artista contrastou fortemente com o engajamento virtual. Embora os números de audiência fossem expressivos e a base de fãs estivesse consolidada, a meta central não havia sido atingida na velocidade planejada.

“Poucas pessoas sabem, mas terminei aquele desafio com uma sensação de completo fracasso. Eu passei 90 dias dizendo publicamente, com a maior certeza do mundo, que ia estourar. E eu tinha estudado, lido livros, feito mentorias e aplicado tudo. Só que o prazo acabou e a minha música não tinha viralizado. Esse era o objetivo principal: ter um hit, fazer a carreira mudar de verdade. Olhava para a minha vida e parecia que nada tinha mudado além dos números na tela. Veio a frustração e veio a vergonha de encarar o público.”

O desfecho, contudo, começou a se desenhar semanas depois, quando reuniões com o mercado renderam uma proposta de investimento expressiva para a sua trajetória. Anara encontrou nas próprias pesquisas comportamentais a chave para processar o ocorrido: “Hoje eu interpreto muito disso através do que estudei sobre o ‘teste de confirmação’: antes de uma grande conquista, você passa por situações que colocam à prova o quanto você realmente quer aquilo. Eu precisei de muito tempo, terapia e análise de estratégia para entender. Olho para as músicas daquela época e vejo com clareza que elas poderiam estar melhores; reconheço erros de estratégia e decisões que hoje seriam diferentes. Não basta você querer, nem querer muito. O sucesso é construído em cima de dezenas de tentativas que não dão certo. Isso fez parte do meu processo.”

Três anos de construção: do quarto para o primeiro álbum

Desde o encerramento do primeiro ciclo, Anara recusou caminhos fáceis ou promessas milagrosas. Foram três anos guardando recursos, estudando produção e compondo de forma independente, período no qual estruturou seu primeiro álbum de estúdio, produzido inteiramente dentro de seu quarto. Ao projetar uma segunda edição do projeto e os lançamentos musicais que se aproximam, a artista define sua nova postura profissional:

“A Anara de hoje é muito mais madura, consciente e preparada. Antes, eu achava que já sabia tudo: lia livros, montava planos e acreditava que o resultado era automático. Hoje entendo que existe uma distância enorme entre acreditar que você vai conseguir e saber construir as condições reais para isso. Passei três anos trabalhando por conta própria, sem ser ingênua com as oportunidades e sem depender da validação ou do dinheiro de ninguém para executar minha visão”, declara.

Para a nova fase, ela afirma: “Antes eu tinha uma urgência absurda porque me sentia atrasada em relação a artistas que tiveram oportunidades que nunca tive. Ainda sinto essa urgência, mas hoje entendo que preciso de uma estratégia que eu consiga sustentar pelo tempo que for necessário, seja um ano ou a vida inteira. Não adianta executar um plano maravilhoso por 90 dias e não ter estrutura para continuar depois. Eu consegui fazer milhares de pessoas acreditarem em mim naquela época, mas não fiz a minha música chegar onde queria. Agora é diferente: não quero que as pessoas me conheçam apenas como a menina com autoconfiança absurda da internet. Quero que conheçam a minha arte, escutem minhas músicas e entrem no meu universo”, finaliza.

Sobre a artista:

ANARA é uma artista pop preta brasileira que transforma sua jornada ao pop global em um storytelling sonoro e visual. De forma 100% pessoal ela ocupa um espaço ainda aberto no pop nacional: a narrativa de ambição e corre, hoje concentrada no rap e no trap e cantada quase sempre por homens, trazida para o pop na voz de uma mulher preta, com a confiança de uma diva e espaço para mostrar vulnerabilidades e posicionamentos que como mulher preta dizem não poder ter.

ANARA se apresenta como um dos nomes da nova geração do pop brasileiro, chega com uma marca coerente entre música, imagem e narrativa. Uma artista que faz do pop um lugar de autoria e usa a própria ambição como assunto, capítulo a capítulo, até o álbum.

Consolidando esse novo momento criativo, a cantora recentemente deu início à sua nova era com o lançamento do single “Dopamina” e agora se prepara para disponibilizar “Automotivo”, que chega a todas as plataformas digitais no dia 18 de novembro. Ambas as faixas integram o repertório de seu aguardado álbum de estreia.

Ouça “Dopamina”:

Leia também:

Destaque

Ontem, um novo marco foi estabelecido na indústria audiovisual com a inauguração da nova casa e estúdio da Doug Filmes, uma das maiores potências...

Famosos

Com exclusividade recebemos uma parte da lista de famosos que confirmaram presença na festa de lançamento do programa “To Talk com Alan Lucci”, que...

Famosos

Uma nova era começa para o Funk Futebol Clube com a nomeação da renomada jornalista Ana Paula Alves como sua embaixadora. O anúncio foi...

Copyright © 2026 | Todos os Direitos Reservados | Programa Camarote | Parceiro SBT

Sair da versão mobile