Histórico familiar, exame físico e evolução do marcador ajudam a definir quem precisa avançar na investigação mesmo diante de um resultado considerado dentro da referência
O Brasil deve registrar 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano entre 2026 e 2028, segundo a estimativa mais recente do Instituto Nacional de Câncer (INCA). O tumor representa 30,5% dos diagnósticos oncológicos estimados entre os homens, quando excluídos os casos de pele não melanoma, e permanece como o tipo mais incidente na população masculina brasileira. Diante dessa frequência, uma pergunta comum nos consultórios merece atenção: receber um resultado de PSA considerado normal significa estar livre da doença? A resposta é não.
Para o Dr. Ricardo Brandina, urologista, coordenador do Programa de Cirurgia Robótica do Hospital Evangélico de Londrina e professor adjunto do Departamento de Urologia da PUCPR, um dos principais erros é transformar o resultado laboratorial em uma resposta definitiva. “O PSA é uma peça importante da investigação, mas não é um exame capaz de dizer sozinho se o paciente tem ou não câncer. A interpretação precisa considerar idade, histórico familiar, exame físico, comportamento do marcador ao longo do tempo e, quando indicado, exames de imagem”, explica.
O PSA, sigla para antígeno prostático específico, é uma proteína produzida pela próstata. Isso significa que alterações na glândula podem modificar sua concentração no sangue sem que necessariamente exista um tumor. Hiperplasia prostática benigna, inflamações e outros fatores podem elevar o marcador. Da mesma forma, valores mais baixos não excluem completamente a possibilidade de doença.
“Quando o paciente olha apenas para a palavra ‘normal’ no resultado, pode interpretar aquilo como uma garantia para os próximos anos. Na prática, o médico precisa entender o contexto daquele número. Um PSA que sobe progressivamente, ainda que continue dentro de determinada faixa de referência, pode merecer uma avaliação diferente de um valor estável”, afirma Brandina.
O histórico muda a interpretação do exame
Entre as informações que podem alterar a avaliação está a presença de casos da doença na família. O INCA considera o histórico de pai ou irmão diagnosticado antes dos 60 anos um fator associado ao aumento do risco. Idade, condições clínicas e antecedentes pessoais também entram nessa análise.
O exame físico também não perdeu espaço com a evolução dos métodos laboratoriais e de imagem. Segundo a diretriz europeia, aproximadamente 18% dos casos identificados a partir de um toque retal suspeito podem ser detectados independentemente do nível do PSA. Um achado anormal pode levar à realização de ressonância ou, em situações específicas, à indicação de biópsia.
“Não se trata de escolher entre PSA, exame físico ou imagem. Cada informação responde a uma parte diferente da investigação. O objetivo é somar evidências para estimar o risco e evitar dois extremos: deixar passar uma doença clinicamente relevante ou submeter um homem a procedimentos invasivos sem necessidade”, ressalta o professor.
Esperar sintomas pode significar descobrir a doença mais tarde
Outro equívoco frequente é associar ausência de sintomas à ausência de tumor. Na fase inicial, o câncer de próstata costuma ter evolução silenciosa, segundo o INCA. Quando aparecem, manifestações como dificuldade para urinar, redução do jato urinário ou aumento da frequência das idas ao banheiro também podem ser confundidas com alterações benignas da próstata. Em estágios avançados, podem surgir ainda dor óssea e outras complicações.
Para Brandina, esse comportamento explica por que aguardar algum sinal do organismo pode ser uma estratégia arriscada em pacientes que já apresentam fatores que justificam investigação.
“Quando o câncer ainda está restrito à próstata, existem mais possibilidades de tratamento com intenção curativa. Esperar dor, sangramento ou alterações urinárias importantes para procurar avaliação pode fazer com que alguns tumores sejam descobertos em uma fase em que as escolhas terapêuticas já são diferentes”, alerta o urologista.
A descoberta em fase inicial também não significa que todos os tumores precisarão da mesma conduta. Para doença restrita à próstata, o INCA lista cirurgia, radioterapia e, em situações selecionadas, estratégias de vigilância entre as possibilidades. A escolha depende das características do tumor, da idade, das condições clínicas e das prioridades de cada paciente.
Brandina reforça que essa individualização começa antes mesmo de existir um diagnóstico confirmado. “A medicina não deve procurar apenas um PSA alto. Ela precisa identificar qual homem tem risco suficiente para continuar sendo investigado. O resultado laboratorial ajuda a abrir essa conversa, mas histórico, exame físico, ressonância e evolução ao longo do tempo é que permitem enxergar o paciente por inteiro”, conclui.
